Há momentos em que aquilo que sentimos parece ocupar tudo. A tristeza pode fazer o futuro parecer distante, o cansaço pode diminuir nossos horizontes e a angústia pode nos convencer de que aquilo que vivemos agora será permanente. Mas nenhum sentimento, por mais intenso que seja, consegue contar sozinho toda a história de uma vida.
Somos seres em movimento. Mudamos, desejamos, perdemos, encontramos, reconstruímos. Há momentos em que sabemos para onde estamos indo e outros em que simplesmente precisamos continuar até que um novo caminho possa aparecer. Viver não significa estar bem o tempo inteiro. Há um mal-estar que faz parte da própria experiência de viver em sociedade. Para construir uma vida compartilhada, aprendemos a lidar com limites, renúncias, expectativas, regras e desejos que nem sempre podem ser realizados como gostaríamos. Ao mesmo tempo, somos atravessados por uma cultura que frequentemente exige produtividade, felicidade, desempenho e adequação, como se fosse possível viver sem conflitos ou insuficiências.
Parte do sofrimento nasce justamente dessa tensão entre aquilo que desejamos, aquilo que podemos realizar e aquilo que o mundo espera de nós. Reconhecer esse mal-estar não significa conformar-se com a dor, mas compreender que nem toda angústia representa fracasso pessoal. Há desconfortos que pertencem ao próprio ato de existir entre outros, desejar, escolher, perder e continuar construindo caminhos possíveis. Uma vida que vale a pena ser vivida também comporta dúvidas, faltas, frustrações e dias difíceis.
Talvez por isso seja tão importante lembrar que o presente não conhece tudo aquilo que o futuro ainda pode trazer. Existem encontros que ainda não aconteceram, pessoas que ainda não conhecemos, lugares onde ainda não estivemos, projetos que ainda não imaginamos e possibilidades de nós mesmos que ainda não descobrimos.
Mas ninguém constrói uma vida sozinho. Precisamos de vínculos, reconhecimento e pertencimento. Precisamos encontrar lugares onde nossa presença tenha significado e onde possamos existir para além das expectativas, dos diagnósticos e das dificuldades. Saúde mental também se constrói na convivência, na cultura, no trabalho, na amizade, na família, na comunidade e no direito de participar da vida.
Neste Setembro Amarelo, talvez nossa reflexão possa começar por aí: não precisamos transformar a vida em uma busca permanente pela felicidade. Precisamos construir condições para que, mesmo quando os dias forem difíceis, ainda exista espaço para o desejo, para o outro e para aquilo que ainda pode acontecer.
Porque a vida é maior do que um momento. E a vida não termina no que sentimos hoje.
Texto estabelecido por Welerson Carneiro





