O projeto Ubá em Cena – Festival de Artes, Memória e Economia Solidária, realizado pela Andorinhas — Associação Ubaense de Saúde Mental realizou nesta semana, 29 de agosto de 2026, a uma importante etapa de suas ações culturais: as mediações culturais com os participantes do projeto. A primeira atividade aconteceu na Praça São Januário, no centro de Ubá, espaço escolhido por sua relevância histórica, religiosa, política, cultural e afetiva para a cidade.
Mais do que uma roda de conversa, a atividade foi conduzida pelo mediador Welerson Carneiro como uma verdadeira experiência de mediação cultural. A proposta foi convidar os associados a olhar para a praça não apenas como um local de passagem, descanso ou convivência, mas como um documento histórico vivo. Jardins, monumentos, bustos, prédios públicos, igreja, caminhos e esculturas foram observados como elementos que narram diferentes momentos da formação urbana e simbólica de Ubá.
Durante a caminhada orientada, os participantes foram estimulados a perceber a Praça São Januário a partir de suas várias camadas de memória. A mediação abordou a relação entre a praça e o nascimento da cidade, a presença histórica da Igreja de São Januário, as transformações do Jardim Cristiano Roças, o monumento do Sagrado Coração de Jesus, os edifícios que cercam a praça e os bustos de personalidades importantes para a história local, como Dr. Fécas, Ozanam Coelho e Dr. Levindo Eduardo Coelho. Também foi destacada a presença de Ary Barroso, representado em escultura ao piano, símbolo da força musical de Ubá e de sua projeção na cultura brasileira.
A atividade também provocou uma reflexão importante: toda praça conta uma história, mas nenhuma praça conta a história inteira. Ao observar os monumentos e homenagens presentes naquele espaço, os associados foram convidados a pensar sobre quem foi lembrado, quem foi transformado em memória pública e quem permaneceu ausente da narrativa oficial da cidade. Assim, a mediação cultural assumiu também um papel formativo, crítico e cidadão.
Além da dimensão histórica, o encontro funcionou como uma imersão cultural integrada às oficinas do projeto. Os associados receberam orientações técnicas da instrutora de fotografia Aline Gabriel, que conduziu exercícios de observação, enquadramento, composição, luz e registro fotográfico. A partir dessas instruções, os participantes puderam registrar, com seus próprios olhares, detalhes da praça, monumentos, paisagens, gestos e cenas do cotidiano urbano.
Essas fotografias terão desdobramentos importantes dentro do Ubá em Cena. Os registros feitos pelos associados irão compor futuras exposições fotográficas do projeto e também servirão como fonte de inspiração para as oficinas de pintura em telas, desenho e artesanato. Dessa forma, a experiência vivida na praça não se encerra no próprio encontro: ela se transforma em matéria artística, memória visual e produção cultural.
A escolha da Praça São Januário para iniciar as mediações culturais reforça o compromisso do Ubá em Cena com a valorização da identidade local. O projeto parte da compreensão de que a cidade também educa, acolhe e produz sentidos. Quando os participantes ocupam os espaços públicos, observam seus símbolos e produzem arte a partir deles, deixam de ser apenas espectadores da história e passam a ocupar o lugar de criadores, narradores e protagonistas da cultura ubaense.
Para a Andorinhas, esse processo tem também uma dimensão de cuidado em liberdade. A participação sociocultural, a convivência em grupo, a circulação pela cidade e a expressão artística são caminhos importantes para fortalecer vínculos, ampliar repertórios, estimular pertencimento e enfrentar o estigma ainda associado ao sofrimento mental.
A primeira mediação cultural do Ubá em Cena mostrou que patrimônio não é apenas aquilo que está preservado em pedra, bronze ou arquitetura. Patrimônio também é o olhar de quem observa, a memória de quem vive a cidade, a escuta compartilhada e a possibilidade de transformar experiência em criação.
Ao final do encontro, a Praça São Januário continuava no mesmo lugar. Mas, para muitos participantes, talvez ela já não fosse mais a mesma. Depois da mediação, seus jardins, bustos, caminhos e monumentos passaram a carregar novos sentidos: história, afeto, pertencimento, arte e cuidado.

















